segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Planetas gêmeos

          Você já deve ter lido algum texto genérico sobre como cada pessoa é um universo, é uma frase pronta bem famosa na verdade, o interessante sobre esse tipo de clichê é que boa parte deles é real, todos vemos o mundo de um modo diferente e único, cada acontecimento é experimentado de uma forma singular e especial por cada um dos bilhões de indivíduos que vagam por esse planeta. 
          É exatamente assim que me sinto quando estou com ela, como se dentro de mim houvessem órbitas, astros e cometas, principalmente quando meus lábios tocam de leve sua pele pálida,  nesse momento uma estrela explode e uma supernova de euforia me consome por dentro.
          Saio com esse pensamento na cabeça, ando por ruas sem importância, sinto o sereno leve que cai sem parar, os grilos cantam e sombrinhas coloridas são agitadas em todas as direções, volto o meu foco pra todos os casais que vejo, é lindo. Duas pessoas que se amam, que decidem dividir a trajetória, dois universos na mesma sintonia, órbitas sincronizadas, planetas gêmeos que se encontram em meio a imensidão da existência.
          No fim das contas isso é tudo que importa, nossos encontros e colisões, não há nada além disso pra se levar da vida, não interessa como você morre, só como você vive, apenas os momentos felizes e a esperança de estarmos juntos mais uma vez, dançando em meio ao caos primordial.



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Her.


          Eu sempre gostei de escutar, escutava o que as pessoas tinham a dizer todo o tempo, na fila do banco, no trabalho, no mercado, em casa, atravessando a rua, onde quer que seja sempre havia alguém disposto a me inundar com uma enxurrada de informações pessoais das quais eu nunca perguntei. 
          Acho que algumas pessoas nascem assim, com cara de confessionário, com o tempo me acostumei, aprendi que o melhor conselho é o silêncio, a última coisa que uma pessoa com problemas quer é a solução, a magia está em reclamar, em mostrar ao mundo: OLHA EU SOFRO HORRIVELMENTE, MAS EU SOU FELIZ OK? É como as coisas acontecem, as pessoas reclamam, os velhos morrem, o orvalho evapora, e não tem nada de errado com isso, contanto que você esteja verdadeiramente feliz, há menos de uma semana, eu fui. 
          Eu poderia morrer ali mesmo, sempre imaginei minha morte assim, na companhia de alguém que amo, repentina e indolor após um momento feliz, não vejo glamour em envelhecer, lutar pela vida ou ver minhas relações se deteriorarem assim como meu intelecto.
          Devia ser umas 03:00 da manhã, eu fumava na janela, toalha na metade da cintura, enquanto olhava as estrelas por cima do muro cinza chapiscado. Eu tragava bem fundo e serrava os olhos mais uma vez em direção ao céu, o vento acertava meu rosto, naquela noite de verão não era o bastante pra esfriar, nesse momento na verdade, nada poderia, deitada na cama ao lado, com seus cabelos negros e respiração profunda estava a razão de tanto calor. Me virei em sua direção e acariciei sua bochecha abaixo do delineado, senti seu perfume doce e o cheiro da fumaça invadirem minhas narinas, e aquele momento é tudo que existe.














quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Escafandro Jones

          Certa noite acordei as 3:45 com o som das ondas em minha cabeça, não eram elas, apenas uma infecção de ouvido que há algum tempo me importunava, seja como for aquilo me fez pensar sobre o dia em que conheci o mar.
          Não entendia o porque estava ali, mas sempre me disseram que seria lindo, não era tão incrível no fim das contas, haviam latas vazias por todo lado, o sal fazia as gretas do corpo arderem e uma garrafa de água custava 5 pratas. Mas foi ali sentado na areia, bebendo pra superar a frustração que conheci ele, Escafandro Jones, pode imaginar isso? Que tipo de mãe imbecil colocaria tal nome em um filho? O que caralhos é um escafandro? Talvez nem fosse esse seu nome, mas a minha embriaguez não me dava força suficiente pra contestar. Já era noite, sentou ali do meu lado na areia fria, acendeu um cigarro.
          - Sabe garoto, existem mais de 7 bilhões de pessoas no planeta, ricas, pobres, comendo putas, passando fome, lindas, horrorosas, pagando suas contas, ou simplesmente ocupando espaço, em algum tempo todas estarão mortas, não vai sobrar nenhuma mesmo que para se lamentar das escolhas infelizes da nossa raça, mas o mar ainda vai estar aqui, as ondas vão lavar as nossas pegadas e todo o lixo que julgamos importante, toda arte, cultura e toda essa bosta que gente moderna curte enfiar no rabo, a única coisa que vai restar será o barulho da água quebrando nos destroços de quem nós fomos.
          - Olha senhor Jones, Escafandro é o pior nome que já ouvi, amaldiçoada seja sua mãe. 
        Rimos de leve, roubei um cigarro e acabamos de esvaziar aquela vodka barata, contei a ele sobre uma garota que havia conhecido que conseguia abrir qualquer garrafa sem as mãos, só com a força das coxas e de como ela era capaz de acabar com aquela baboseira existencial dele em apenas uma rebolada.
          Mas hoje acordado nessa noite nostálgica aquilo me serve de consolo, os sonhos não são um sintoma a ser superado, quer dizer, no fim das contas são tudo que nos resta, e depois de um dia de merda são eles que nós dão a garra pra não nos atirar do décimo andar, tudo vai acabar, cedo ou tarde, pra mim ou pra você em tempos diferentes mas vai, então sinceramente não há lógica em não aproveitar a vida e fazer o que se quer as vezes, afinal o fracasso e a culpa podem ser uma merda mas não importa, porque em algum tempo, tudo será mar.
          Mas por Deus, que porra de nome é Escafandro?
           

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Noites de verão

          Lá pelos vinte e poucos anos eu trabalhei em uma construção, daquelas que buscam homens nas vilas em volta e os amontoam em alojamentos minúsculos com cheiro de saco, carne ferventada e cimento. O trabalho era duro, a pior parte era justamente estar cercado de imbecis que mexiam com qualquer garota que passasse minimamente perto, não podia reclamar muito, se eu estava ali bancando o burro de carga por alguns trocados a hora eu certamente não havia feito muitas escolhas melhores que eles.
         O alivio vinha quando o sol se despedia, eu podia enfim tomar um banho e ir me embriagar nos botecos de luz amarelada e música brega, em um desses foi onde a encontrei, dançando alegre enquanto tragava seu cigarro paraguaio que queimava insanamente rápido, assim como o juízo de qualquer coitado que colocasse os olhos naquele par de coxas grossas e morenas, me aproximei.
          -Ei meu bem, não quer tomar uma cerveja e conversar?
          -São 40 reais.
          -Pra conversar?
          -Pra trepar ora, você é meio lerdo?
          E assim naquela noite acabei conhecendo aquelas coxas mais de perto, assim como todo aquele corpo moreno, nunca fui fã de pagar por sexo, mas algo naquele perfume doce fez com que eu perdesse o total controle, um erro tolo, os olhos se esquecem fácil, o toque se esvai, mas o cheiro sempre volta. Dessa maneira acabei voltando nas noites seguintes, até que ela não mais cobrava, não dinheiro, só queria saber sobre minha vida, eu pagava com histórias, de como era o interior, de como as pessoas podem ser más, dos problemas em casa, de como o garoto mais inteligente da turma pode acabar no trabalho braçal.
          O tempo passou e em uma longa noite quente entre os lençóis ela me beijou, isso ela nunca havia permitido, e no momento nem me senti mal pelo beijo apesar da sua profissão, eu havia cometido um erro, mais um na pilha enorme que se acumulava em minhas costas, havia naquele momento me apaixonado por uma puta. Dois dias se passaram e fui procurá-la no bar como sempre, nem sinal dela, cheguei perto do balcão.
          -Ei seu Zé, cadê a Raquel? Nem sei qual era seu nome real, dava um diferente pra cada um que perguntasse.
          -Você não soube? Coçou a careca. -Foi morta ontem, tadinha, levou dois tiros perto da BR, pelo visto algum cliente não saiu muito satisfeito, é triste garoto eu sei, mas são riscos dessa vida.
          Sai dali sem saber como reagir, então fiz o que sempre fazia, comprei mais um maço de cigarros, vaguei pela noite e no dia seguinte trabalhei com o triplo da força, com raiva e tristeza, algum tempo depois a obra ficou pronta, o serviço acabou por aquelas bandas e foi hora de voltar pra casa, me despedi daquele bar com uma feroz melancolia, porque no fim das contas era a única coisa que eu tinha pra me lembrar dela, muito tempo se passou desde então, muitos prédios, muitas paixões, mas sempre que sinto um cheiro doce de perfume aquelas coxas que mexiam junto a Jukebox surgem na mente e me fazem sorrir e continuar, porque no fim das contas um novo amor sempre pode surgir, seja ele em um lugar santo ou num boteco sujo tragando seu cigarro paraguaio pronta para a próxima trepada.  

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Insensatez


           Não há só uma viva alma que não tenha sofrido de uma forma ou outra por amor, então porque insistimos nisso? Eu pensava comigo mesmo enquanto rasgava nossas fotos. Aquelas noites eu juro, foram as mais longas da minha vida, eu agradecia ao universo pela minha insônia, pela primeira vez, se eu dormisse afinal sabia que sonharia com a causa dos meus prantos, até mesmo se fechasse os olhos, por mais tempo que uma leve piscada, seu rosto estaria ali me assombrando, mostrando-me que falhei, mais uma vez.
        Depois de um tempo, dormi, e como naquela música acordei mais cansado que sozinho, mensagens lotavam meu celular, não respondi, não me importa, o dia estava nublado, as pessoas estavam entediantes, tudo parecia ter voltado para o lugar, é claro, ainda sentia que faltava um pedaço meu, então eu preenchia com garrafas e mais garrafas de vinho barato, até meu estômago se rebelar, até o mundo girar a minha volta, e eu finalmente poder vomitar aquela mágoa, no chão do banheiro, enquanto a água gelada do chuveiro caía sobre meu corpo, não é uma cena glamorosa como nos filmes, nem pretendo romantizar, o fato é que naquele pequeno momento, em que meu ego se diluía, em que eu perdia o controle do meu corpo e mente, meu mundo se tornava apenas um espiral de embriaguez, eu podia finalmente ter ao menos alguns segundos em paz, sem sentir que ela levou minhas entranhas, e que sou só um manequim oco, sem motivo para viver.
          Sempre me disseram que tenho alma de poeta, mas não, não existe tal coisa, as palavras estão soltas, todos podem pegar sua parte, mas acontece que pra alguém com a alma despedaçada elas funcionam como uma cola, você escreve o que sente, em cada pedacinho do seu ser, e as partes parecem menos desconexas, é possível racionalizar o que aconteceu, e apesar é claro das inúmeras cicatrizes abjetas, você consegue mais uma vez, unir-se, e encontrar a si mesmo, sem precisar de alguém que o complete, não precisa fingir mais, não precisa ser durão, as pessoas ainda sentem, o romance não está morto, a alma nunca deixa de regenerar-se, trauma após trauma, mas a dor precisa ser sentida, então beba, fume, berre loucamente, corra até seus pés sangrarem, reze, chore, faça qualquer coisa, mas siga em frente, suas feridas não te definem você é que define a importância que elas tem, você não é a sua dor.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Efervescência

        Eu a conheci por acaso, aquele verão nos envolveu numa louca onda de calor, nos encontrávamos sempre que possível, as horas viravam minutos e a maré de sua voz doce colidia ferozmente contra meu temperamento seco e arenoso. Ela ria das minhas antigas frustrações, das minhas piadas sem graça, e até da minha mania de mudar de assunto quando deixava escapar algo fofo, sim, chorava na mesma intensidade quando me via triste, dopado de remédios e com os olhos sem vida e opacos, como um manequim, nunca foi minha intenção que ela ficasse mal, não por mim, mas a vida é bem clara a respeito disso, quase tudo que acontece no final das coisas independe da nossa vontade.
      Numa noite qualquer nós nos esquecemos do tempo, silenciamos os celulares, e rasgamos a cidade, eu mostrei os lugares aonde ia para escrever, onde ia odiar o que tinha escrito, e onde me afogava em bebida enquanto lamentava nunca chegar onde queria, claro, também o meu refúgio, onde olhava o céu cheio de estrelas, onde as palmeiras dançavam com o vento, nos beijamos violentamente, sem preocupações, mas quando o sol ameaçou nascer, eu resolvi leva-la para casa, mesmo que nosso fôlego não tivesse morrido.
     - Você sabe dizer o que sente por mim, João? - Disse ela.
     - Eu gosto de passar o tempo com você, mas não sei o que sinto. E quanto a você? - Respondi.
     - Sei sim, exatamente, e é justamente isso que tanto me assusta.
        Nunca soube nomear sentimentos, é como tentar definir uma sinfonia inteira em apenas uma nota, não cabe, explode como o som da nossa pele que se choca entre os lençóis, transborda como suas lágrimas naquele filme bobo, ou em alguns casos apenas definha, até que você percebe que tudo que sobrou foi o silêncio. E o silêncio eu não posso permitir, não importa se somos amantes eternos ou só um romance de verão, eu nunca poderia suportar ser o responsável por silenciar sua alma, e repentinamente me dar conta que sou apenas mais um cara num bar sem nada a dizer, com uma mulher ao meu lado de braços cruzados e olhar tedioso.

sábado, 14 de julho de 2018

Sofrimento numa noite de verão

           Naquele dia eu quis me jogar do quarto andar, mais que nos outros dias, fantasiei e ensaiei dezenas de vezes, imaginava o barulho seco que meu crânio faria contra o asfalto, e como teriam que me velar com o caixão fechado, porque minha cara se confundiria num amaranhado de pele e ossos feio e sem sentido.
           Pensei em todas as mulheres que já passaram pela minha vida, tudo pareceu nebuloso, como quando você está em um sonho e começa a acordar e então os objetos escapam das suas mãos ou são atravessados por elas, você então percebe que não é real e a consciência te suga para a realidade, como a descarga suga merda.
             Eu sei que é uma comparação vulgar, mas é exatamente por isso que serve tão bem, por mim, por todos que magoei, por todas as expectativas que destruo pouco a pouco, minhas ou de quem me acompanha, sempre achei que era um elogio quando me diziam que eu nunca paro de surpreender, mas sabe, não existem só surpresas boas, e no momento apesar de eu parecer um bolo de aniversario gigantesco e apetitoso, estou podre por dentro, o mais leve toque e você pode conseguir sentir a acidez e os vermes.
         O céu estava lindo, um laranja forte tocava o azul escuro profundo que começava a parecer preto pouco a pouco, minha cabeça doía e pesava por causa da maldita sinusite, mas tudo bem, os pensamentos anteriores faziam aquela dor parecer irrelevante, e além do mais, já era sexta feira, e se fosse pra morrer que fosse só por dentro, afogado no ardor do álcool ou quem sabe sufocado pela fumaça do cigarro que já prometi largar tantas vezes, Bukowski sempre dizia afinal:
           
            "A tristeza me recobre
           E mando a cerveja goela abaixo
           Peço uma bebida forte 
           Rápido
           Para adquirir a garra e o amor de
           Continuar!"